← Maestro

Edição semanal · Maestro

O Caderno do Artista

Um pilar por dia, a carreira inteira em foco.

Todas as matérias

SEGUNDA-FEIRA — CADERNO CUIDADO

Uma Profissão de Risco Que Ainda Não Se Trata Como Uma

Um estudo da Universidade de Londres classificou a indústria musical entre os ambientes de trabalho mais arriscados para a saúde mental de quem atua nela.

Por Redação Maestro · 28 de setembro de 2026 · Foto: acervo Maestro

Capa da matéria Uma Profissão de Risco Que Ainda Não Se Trata Como Uma
Uma Profissão de Risco Que Ainda Não Se Trata Como Uma

Em março de 2025, os pesquisadores George Musgrave, da Goldsmiths, Universidade de Londres, e Dorian Lamis, da Escola de Medicina da Universidade Emory, publicaram na revista científica Frontiers in Public Health a primeira análise global de mortalidade rotineira entre músicos. O resultado colocou a categoria musical entre as cinco ocupações com maiores taxas de suicídio no Reino Unido, com risco 20% mais alto entre homens e 69% mais alto entre mulheres, em comparação com a população em geral. Nos Estados Unidos, mulheres que trabalham com música registraram a maior taxa de suicídio entre todas as profissões femininas em três levantamentos consecutivos, e homens da área ficaram em terceiro lugar entre todas as ocupações masculinas. Um dos pesquisadores resumiu o achado numa frase direta, reproduzida por veículos como o MusicRadar: a indústria da música é, estruturalmente, "um lugar profundamente perigoso para se trabalhar".

O estudo não trata isso como destino individual, mas como consequência de fatores concretos e mapeáveis — os mesmos que qualquer músico brasileiro reconhece de cabeça baixa: instabilidade ocupacional crônica, exposição constante em redes sociais, o desgaste físico e emocional de turnês, taxas mais altas de ansiedade e depressão, e maior acesso a substâncias em ambientes de trabalho noturnos. É a soma dessas engrenagens, e não uma fraqueza pessoal isolada, que empurra o risco para cima. E há um detalhe que o estudo sublinha com cuidado: ser mulher nessa equação representa, sozinho, o fator de risco mais alto em relação à população geral — um lembrete de que essa crise não afeta todo mundo do mesmo jeito, mesmo dentro da própria categoria.

A parte mais importante da pesquisa, no entanto, não é o diagnóstico — é a proposta. Musgrave e Lamis defendem a adoção, pela indústria musical, de uma "abordagem zero suicídio", um modelo já testado em outros setores de alto risco, com sete componentes administrativos e quatro clínicos: triagem de risco sistemática, intervenções baseadas em evidência, estratégias de telessaúde pensadas especificamente para quem está em turnê e longe de casa. Em outros setores que adotaram esse tipo de protocolo, a redução nas taxas de suicídio chegou a 75%. O dado importa porque desloca a conversa de "os músicos precisam ser mais fortes" para "a indústria precisa construir rede" — uma mudança pequena na frase, mas gigantesca na responsabilidade que ela distribui.

Para quem vive de música no dia a dia, esses números costumam soar distantes até o momento em que deixam de soar. A cultura da categoria ainda recompensa quem "aguenta", quem não cancela show, quem não fala sobre o que está sentindo entre uma turnê e outra. Pedir ajuda, nesse contexto, ainda carrega um peso que outras profissões já começaram a soltar. Mudar isso não depende só de vontade individual — depende de ter, à disposição, caminhos concretos e de fácil acesso para conversar sobre o que está pesando, antes que o peso vire crise.

É esse tipo de caminho que o módulo de Cuidado do Maestro Premium tenta oferecer: apoio emocional com IA para os dias comuns, e encaminhamento direto para psicólogos licenciados quando a conversa precisa ir além do que qualquer ferramenta digital dá conta sozinha. Se você está passando por um momento difícil agora, o CVV (188) oferece escuta gratuita, sigilosa e humana, 24 horas por dia, todos os dias — vale ligar. Cuidar da saúde mental de quem faz música não deveria ser exceção. Deveria ser parte da estrutura, do mesmo jeito que um seguro de equipamento ou um contrato bem redigido.

Ler outras matériasPróxima edição: terça · Identidade