← Maestro

Edição semanal · Maestro

O Caderno do Artista

Um pilar por dia, a carreira inteira em foco.

Todas as matérias

SEGUNDA-FEIRA — CADERNO CUIDADO

Todo Mundo Aqui Parece Saber Mais Que Eu

Por que músicos que já provaram o próprio talento continuam se sentindo uma fraude prestes a ser descoberta, segundo relatos recentes da própria indústria.

Por Redação Maestro · 14 de setembro de 2026 · Foto: acervo Maestro

Capa da matéria Todo Mundo Aqui Parece Saber Mais Que Eu
Todo Mundo Aqui Parece Saber Mais Que Eu

A cantora islandesa-chinesa Laufey, hoje com discos no topo das paradas de jazz-pop e turnês esgotadas em arenas, contou numa entrevista à Billboard Brasil que, mesmo depois do sucesso, viveu — e ainda vive, em doses menores — o que chamou de síndrome do impostor "ao extremo". A DJ britânica Sherelle, residente da BBC Radio 1 e uma das mais tocadas do circuito eletrônico do Reino Unido, disse algo parecido num relato reproduzido pela revista Mixmag Brasil: no início da carreira, sentava à mesa com nomes consagrados da indústria e passava a noite inteira convencida de que, a qualquer momento, alguém perceberia que ela não pertencia ali. Duas mulheres em pontos bem diferentes da carreira, dois gêneros musicais distantes, o mesmo roteiro mental.

A síndrome do impostor — a sensação persistente de que o próprio sucesso é sorte, encenação ou erro de avaliação alheia, e de que a "verdade" sobre a própria incompetência está prestes a vir à tona — não é exclusividade de músico. Afeta, segundo estimativas citadas pela própria Mixmag, cerca de sete em cada dez pessoas em algum momento da vida profissional. Mas em indústrias criativas esse número sobe para perto de 87%. Faz sentido: são campos onde o valor do trabalho é subjetivo, onde a comparação é constante e pública, e onde "ser bom o suficiente" nunca vem com um certificado — vem, na melhor das hipóteses, de uma platéia que aplaude hoje e pode simplesmente não aparecer amanhã.

Jack Williamson, da organização britânica Music & You, voltada a saúde mental na indústria musical, faz uma observação que ajuda a entender por que o tema ganhou tanto espaço nos últimos anos: a síndrome do impostor não é nova, mas as conversas sobre ela são. Durante décadas, admitir essa insegurança foi tratado como fraqueza incompatível com a imagem de artista seguro de si que o mercado espera ver no palco. O resultado é gente carregando, em silêncio, a convicção de que todo elogio recebido foi imerecido, enquanto qualquer crítica confirma o que "sempre soube" sobre si mesma. É um jeito exaustivo de viver uma carreira — sempre em débito com uma régua que ninguém nunca mostrou de verdade.

Tem uma ironia dolorida nisso tudo: quanto mais um músico cresce, mais visível fica, e mais visível a insegurança também fica, só que virada para dentro. Plateias maiores, contratos maiores, colegas mais renomados ao redor — cada degrau que deveria trazer confirmação de competência costuma trazer, junto, uma nova plateia interna de comparação. Não é raro artistas relatarem sentir mais medo de decepcionar depois de um sucesso do que sentiam antes dele, quando ainda tinham "menos a perder". A síndrome do impostor se alimenta exatamente disso: da distância entre a prova concreta de talento acumulada ao longo dos anos e a narrativa interna que insiste em ignorá-la.

Nomear esse padrão já ajuda — foi o que Laufey e Sherelle descreveram fazer, cada uma a seu modo, ao falar sobre isso publicamente. Mas nomear sozinho nem sempre é suficiente quando o pensamento se repete todo santo dia, antes de cada show, depois de cada crítica. É para esse tipo de padrão que existe o suporte emocional do Maestro Premium: acompanhamento baseado em IA para os dias em que a voz interna fica alta demais, com encaminhamento para psicólogos licenciados quando o assunto pede uma escuta mais profunda do que qualquer ferramenta digital consegue oferecer sozinha. Às vezes o que separa um músico talentoso de um músico que se sente talentoso não é talento nenhum — é ter com quem conversar sobre a diferença.

Ler outras matériasPróxima edição: terça · Identidade