TERÇA-FEIRA — CADERNO IDENTIDADE
O Nome Que Você Escolhe
De Gusttavo Lima a Cazuza, artistas brasileiros sempre reinventaram o próprio nome — e essa escolha diz mais sobre identidade do que parece.

Nivaldo Batista Lima não teria o mesmo impacto num outdoor. Não é uma questão de preconceito com o nome — é que Gusttavo Lima, com aquele "tt" duplicado de propósito, já nasceu pensado como marca, como algo que cabe numa capa de álbum e ocupa espaço visual. A escolha de um nome artístico raramente é aleatória, e revisitar os motivos por trás de alguns dos nomes mais conhecidos da música brasileira ajuda a entender uma coisa que costuma passar despercebida: trocar de nome é, na maioria das vezes, o primeiro ato de construção de identidade que um artista pratica conscientemente.
Tem quem mude por estratégia pura de mercado, como parece ter sido o caso de Gusttavo Lima. Tem quem mude por afeto e memória, como Cazuza — nome que já era apelido de infância, "cazuza" sendo uma forma carinhosa e nordestina de dizer "menino", e que ele carregou como identidade artística inteira, sem nunca soar impostado, porque na verdade nunca foi imposto: já era dele antes da fama. E tem casos ainda mais elaborados, como o do ator Chay Suede, cujo nome foi criado pelo avô, que traduziu sobrenomes da família e se inspirou no filme "Johnny Suede", estrelado por um Brad Pitt ainda desconhecido nos anos 90 — uma escolha de identidade que atravessou gerações antes de virar carreira.
O interessante é que cada uma dessas motivações revela uma camada diferente de como a indústria e o próprio artista entendem identidade. Quando a dupla Chitãozinho e Xororó trocou José Lima Sobrinho e Durval de Lima pelos nomes que conhecemos, ou quando Zezé Di Camargo abandonou Mirosmar José de Camargo, havia ali uma lógica de mercado sertanejo dos anos 80: nomes precisavam soar cantáveis, precisavam caber num refrão gritado em plateia. Já a cantora Melody, nascida Gabriela de Abreu Severino, construiu o nome artístico em torno daquilo que mais a diferenciava tecnicamente — o registro vocal agudo que virou sua característica. Nesses casos, o nome não é máscara: é resumo. É a tentativa de comprimir, numa única palavra fácil de lembrar, o que a pessoa quer que o público entenda dela antes mesmo de ouvir a primeira nota.
E é por isso que trocar de nome artístico no meio da carreira — algo cada vez mais comum entre músicos independentes que sentem que o nome antigo já não representa o som atual — não deveria ser tratado como capricho. É, na prática, uma auditoria de identidade: parar, olhar pra trajetória e perguntar se aquilo que te apresenta ainda apresenta a pessoa certa. Muitos artistas adiam essa decisão por medo de perder o público que já construíram, sem perceber que manter um nome que não cabe mais costuma confundir mais esse público do que qualquer mudança confundiria.
Definir com precisão o que um nome — ou uma imagem, ou uma narrativa de carreira — deveria comunicar sobre você é exatamente o tipo de exercício que o diagnóstico de identidade do Maestro foi desenhado para provocar. São trinta perguntas que ajudam a colocar em palavras aquilo que muitas vezes o artista sente mas nunca articulou, e que resultam num cartão de visita digital para compartilhar, junto com orientações específicas para a fase de carreira em que você está agora. Às vezes a resposta não é trocar de nome. Mas vale a pena, pelo menos uma vez, fazer a pergunta a sério.