← Maestro

Edição semanal · Maestro

O Caderno do Artista

Um pilar por dia, a carreira inteira em foco.

Todas as matérias

SEGUNDA-FEIRA — CADERNO CUIDADO

Depois Do Último Show, Quem Você É?

Em dezembro, o Planet Hemp fez sua apresentação final no Rio — e reacendeu uma pergunta que atinge todo músico quando uma banda termina para sempre.

Por Redação Maestro · 19 de outubro de 2026 · Foto: acervo Maestro

Capa da matéria Depois Do Último Show, Quem Você É?
Depois Do Último Show, Quem Você É?

No dia 13 de dezembro de 2025, o Planet Hemp subiu ao palco no Rio de Janeiro pela última vez. Marcelo D2, um dos fundadores, explicou a decisão de encerrar o grupo depois de mais de três décadas de história com uma frase que qualquer músico entende de imediato: o grupo "não tinha mais a mesma energia de antes", e ele não queria "ver o Planet virar um cover de si mesmo". Não foi uma briga pública, não foi colapso financeiro — foi a escolha consciente de parar antes que a coisa que um dia foi verdadeira virasse encenação de si mesma. É um tipo de decisão rara, e talvez por isso mesmo mais difícil: fechar um ciclo no auge da lucidez, sem que ninguém de fora esteja empurrando.

O Planet Hemp não esteve sozinho nessa despedida. Só em 2025, pelo menos oito bandas de peso internacional encerraram atividades ou fizeram seus últimos shows: Black Sabbath, Whitesnake, Sum 41, Refused, Mr. Big, REO Speedwagon, a banda punk americana X — cada uma com sua própria razão, seu próprio ritmo de fechamento. Vistas em conjunto, essas despedidas revelam algo que a indústria raramente discute em voz alta: bandas têm ciclo de vida, e o momento de reconhecer o fim exige uma honestidade emocional que vai muito além de decidir uma data de show de despedida.

Porque o que realmente termina quando uma banda acaba não é só a agenda de shows. Para quem viveu dentro daquele projeto por anos — às vezes décadas —, a banda funcionou como identidade profissional, círculo social e estrutura de rotina, tudo junto. É o grupo de WhatsApp que organizava a semana, é o parceiro de composição que sabia terminar sua frase musical antes de você mesmo, é a resposta automática para "o que você faz" que de repente deixa de valer. Psicólogos que estudam luto chamam isso de perda ambígua: não há morte, não há funeral, mas há uma ausência real de algo que ocupava um lugar central na vida de alguém. E como não existe um roteiro social pronto para esse tipo de luto — ninguém manda cartão de pêsames pelo fim de uma banda —, ele costuma ser vivido em silêncio, sem que o próprio músico sempre reconheça o que está sentindo como luto de verdade.

Tem um momento específico, que quem já passou por isso descreve quase sempre do mesmo jeito: a manhã depois do último show. O aplauso final ainda ecoando, e depois disso, nada agendado. Nenhum ensaio marcado, nenhuma mensagem no grupo perguntando o horário da passagem de som. É nesse silêncio recém-instalado que a pergunta aparece, inevitável: sem a banda, quem eu sou? Ela pode ser assustadora — mas também pode ser o início de outra coisa, quando há espaço e tempo para atravessá-la com cuidado, em vez de simplesmente tapar o vazio com o próximo projeto às pressas, só para não sentir.

É esse tipo de transição — real, emocionalmente pesada, e raramente nomeada como o que é — que o Maestro tenta acolher dentro do módulo de Cuidado do plano Premium: suporte emocional com IA para os dias em que o silêncio depois do fim de um ciclo pesa mais do que qualquer ensaio, e encaminhamento para psicólogos licenciados quando reconstruir a própria identidade fora de um projeto pede mais do que tempo consegue resolver sozinho. Todo fim de banda é, também, um recomeço de alguém — e recomeços merecem acompanhamento tanto quanto qualquer turnê.

Ler outras matériasPróxima edição: terça · Identidade