QUINTA-FEIRA — CADERNO MERCADO
Cachê não é chute
Um acordo inédito no São João baiano mudou a forma de calcular cachês — e escancarou um problema que atravessa toda carreira musical.

Em maio, o Ministério Público da Bahia fechou um acordo com empresários de mais de vinte artistas que tocam nos festejos juninos do estado. O motivo: os cachês vinham subindo ano após ano de um jeito que ninguém conseguia explicar direito, e boa parte desse dinheiro sai do bolso público. A solução que encontraram foi simples de entender e difícil de discutir: o reajuste passa a ser calculado com base na média praticada no ano anterior, corrigida pela inflação, e qualquer aumento acima disso só se justifica se o artista comprovar crescimento real — mais shows fechados, presença em novos estados, audiência maior nas redes. Nomes grandes do sertanejo e do forró entraram nessa conta, e a estimativa é que só uma banda, com seus contratos programados, deixe de custar cerca de cem mil reais a menos por apresentação.
A notícia é sobre grandes nomes e dinheiro público, mas o raciocínio por trás dela vale pra qualquer músico que vive de show, do artista que enche arena ao que toca em bar de bairro. Cachê, no fim das contas, é sempre uma negociação, e negociação sem lastro é terreno arenoso pros dois lados. Cobra-se por comparação com o colega, por instinto, por aquilo que "parece justo" naquele momento — e isso tanto empurra músico bom a cobrar menos do que vale quanto faz outro perder contrato por pedir um valor que não tem como sustentar diante do contratante.
Basta olhar pro outro lado do mercado, o das festas e eventos, pra ver como o preço nunca foi um número fixo. Uma banda para casamento no Brasil pode custar de poucos milhares a dezenas de milhares de reais, dependendo de quantos músicos sobem no palco, da estrutura de som e luz, da data escolhida, do quanto falta pro evento e do nível de produção entregue. Um evento corporativo segue lógica parecida. Ou seja: o mercado já precifica por critério, mesmo quando o músico do outro lado da mesa não sabe nomear esses critérios nem tem como provar os seus.
E é exatamente aí que mora o ponto que o acordo da Bahia deixou tão claro: critério só funciona se alguém guarda os números. Quantos shows você fez neste ano comparado ao ano passado. Pra quantas cidades novas você foi. Quais contratantes voltaram a te chamar e quais sumiram depois do primeiro cachê pago. Pra maioria dos músicos, essa história está espalhada entre conversa de WhatsApp, contrato perdido no e-mail e memória mesmo — o que torna quase impossível chegar numa negociação com algo além de "acho que valho isso".
É esse o problema que o pilar Mercado tenta resolver dentro do Maestro. A ideia não é dizer quanto você deve cobrar, mas te dar o que falta pra você mesmo chegar nessa conta: um histórico organizado de quem te contratou, quando, por quanto, e quem ficou tempo demais sem voltar a ligar. O CRM do app existe justamente pra isso — pra reativar contratante antigo, produtor que sumiu, casa de show que só te chamou uma vez — e pra que, na próxima proposta, o número que você diz não venha do estômago, venha de dado real sobre o seu próprio mercado de trabalho.